A Construção da Agência na Aprendizagem de Línguas: Educando para a Autonomia, o Pensamento Crítico e a Decolonialidade
Como transformar o ensino de idiomas e a Educação Multi/Bilíngue em forças de emancipação e intervenção social ativa.
Izabel Rego de Andrade
7/7/20265 min ler
O cenário do ensino de idiomas e o imperativo da transformação
O mercado de ensino de idiomas e as instituições escolares que adotam propostas de Educação Multi/Bilíngue passam por um momento de redefinição crucial. O modelo tradicional de ensino — focado na memorização passiva de regras gramaticais ou na adaptação de alunos a demandas do mercado de trabalho — mostra-se insuficiente para as complexidades do século XXI. Para gestores, coordenadores e professores de línguas, o desafio não é apenas ensinar um novo código linguístico, mas entender que a aprendizagem de línguas é uma prática social que molda a forma como os sujeitos percebem, atuam e se posicionam no mundo.
Com a expansão de escolas e institutos bilíngues no Brasil e na América Latina, surgem dilemas práticos recorrentes nas salas de aula: Como fazer com que os estudantes assumam o protagonismo de suas aprendizagens sem cair no individualismo ou na mera competição? Como superar visões elitistas que enxergam a língua adicional apenas como mercadoria ou 'passaporte de prestígio'? De que modo o trabalho docente pode promover autonomia real, pensamento crítico e responsabilidade ética em relação à sociedade?
A resposta a essas inquietações passa, fundamentalmente, pela compreensão e pelo desenvolvimento da agência dos estudantes no processo educativo.
O que é Agência e por que ela supera o mero "Protagonismo"?
Nos discursos pedagógicos contemporâneos, é comum ouvir falar sobre a importância do "protagonismo do aluno". No entanto, do ponto de vista da Linguística Aplicada e da Teoria Sócio-Histórico-Cultural, há uma diferença sutil, porém profunda, entre formar um protagonista e desenvolver um agente.
Como aponta a Dra. Fernanda Coelho Liberali, o termo "protagonista" frequentemente carrega contradições. Na linguagem comum, ele remete ao ator principal, àquele que se destaca e se sobrepõe aos demais, podendo dialogar com visões meritocráticas e individualistas. Quando a educação busca a formação de agentes, ela vai muito além do destaque individual.
A agência refere-se à capacidade intencional das pessoas situadas no mundo de dominar a própria vida, participando ativamente e assumindo a responsabilidade ética e moral pelas implicações de suas práticas. Em vez de apenas se adaptar às exigências do sistema ou reproduzir passivamente discursos hegemônicos, o estudante-agente aprende a refletir, questionar e intervir nas realidades em que está inserido.
Para compreender a riqueza do conceito, Liberali mapeia diferentes tipologias de agência que podem ser desenvolvidas na sala de aula:
Agência Relacional: Ações intencionais nas quais os sujeitos oferecem e solicitam apoio aos pares, potencializando mutuamente a aprendizagem coletiva.
Agência Crítico-Colaborativa: Envolve a avaliação conjunta e o questionamento compartilhado de teorias e práticas para a construção do novo.
Agência Transformadora: Ocorre quando os indivíduos desenvolvem autoridade e autoria coletiva para transformar ativamente realidades injustas ou insatisfatórias.
Agência Desencapsulada: Capacidade de utilizar repertórios prévios para atuar em novos papéis sociais e em contextos onde antes o sujeito não tinha voz ou responsabilidade.
Agência Translíngue: A expansão da mobilidade do sujeito por meio de múltiplos recursos linguísticos e multimodais para circular com confiança em diferentes arenas sociais.
A perspectiva decolonial e a superação do "Inglês Colonial"
A aprendizagem crítica de línguas na América Latina não pode ignorar o conceito de decolonialidade. Autores latino-americanos, como Walter Mignolo, Enrique Dussel e Aníbal Quijano, argumentam que o colonialismo não acabou com o fim das administrações coloniais; ele permanece sob a forma de "colonialidade do poder, do saber e do ser".
No ensino de idiomas — em especial da língua inglesa —, a colonialidade manifesta-se quando o idioma é ensinado como uma norma rígida e idealizada vinda do Norte Global (como os Estados Unidos ou o Reino Unido), que silencia saberes locais e desvaloriza as identidades dos próprios estudantes.
Desenvolver a agência em uma perspectiva decolonial significa promover a desobediência epistêmica e o uso de práticas translíngues (translanguaging). Como demonstram pesquisadores como Ofelia García e Suresh Canagarajah, o falante bilíngue ou multilíngue não é um somatório de dois monolíngues em uma só pessoa, mas alguém que utiliza todo o seu repertório multimodal e flexível para construir sentido e intervir no mundo. Ao acolher o translinguajar na sala de aula, libertamos as vozes dos alunos e os capacitamos para questionar estereótipos e assimetrias sociais.
Desafios práticos e estratégias para a sala de aula
Como transformar a teoria em prática pedagógica diária nas escolas de idiomas? O desenvolvimento da agência exige que o aluno abandone o papel de espectador passivo e assuma a responsabilidade pela coprodução do conhecimento.
Dentre as estratégias metodológicas mais eficazes para promover a agência e o pensamento crítico, destacam-se:
1. Pedagogia de Projetos voltada à Atividade Social
A aprendizagem baseada em projetos não deve se limitar à criação de "produtos bonitos" para feiras escolares. O planejamento deve partir de problemas reais da comunidade local ou global. Como propõem Gladys Lopes Faria e Ingrid Puche, o projeto deve ser conduzido por questões orientadoras provocativas e abertas, promovendo ciclos de investigação em que os alunos pesquisam, debatem e propõem intervenções sociais concretas.
2. Metodologias Ativas e Rotinas de Pensamento
O uso de metodologias ativas oferece o suporte operacional para a agência. Práticas sugeridas pela Dra. Renata Condi, como o Concept Attainment Model (Modelo de Incorporação de Conceito), o 3-2-1 e a rotina Ver-Pensar-Questionar, provocam os estudantes a analisar dados, formular hipóteses e argumentar antes de receberem conclusões prontas do professor.
3. Clareza Política e Ideológica do Educador
Conforme argumenta a Dra. Antonieta Megale, fundamentada na obra de Lilia Bartolomé, o desenvolvimento da agência dos alunos exige, em primeiro lugar, o desenvolvimento da clareza política e ideológica dos professores. Os educadores precisam examinar criticamente seus próprios valores e os discursos hegemônicos, compreendendo que o ensino de línguas não é um ato neutro, mas um compromisso ético e cidadão.
Educando para o "Inédito Viável"
Investir na agência e no pensamento crítico durante a aprendizagem de línguas é recusar a resignação. Quando os estudantes percebem que o idioma é uma ferramenta de ação e que seus repertórios são legítimos, eles deixam de ser meros consumidores de conteúdos e passam a atuar na busca do que Paulo Freire denominava o inédito viável: a construção conjunta de iniciativas e transformações sociais que ainda não foram realizadas, mas que têm todo o potencial de se concretizar.
As escolas e institutos de idiomas que assumem esse compromisso posicionam-se na vanguarda da educação contemporânea, formando não apenas falantes proficientes, mas cidadãos globais éticos, reflexivos e genuinamente transformadores.
Referências Bibliográficas
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